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Conheça Jorge Feitosa, o santa-cruzense que "costura" sua trajetória com a moda em uma das maiores capitais do país

Jorge Feitosa em seu fabrico, ateliê - Foto: Lud Lower
Em Santa Cruz do Capibaribe, é difícil falar em economia e não falar de moda, o município que leva o codinome de ''Capital da Moda'', tem esse segmento como o principal elevador de sua economia. Engana-se também quem pensa que, a cidade vive apenas da popularmente conhecida como ''sulanca'', mercadoria que possui valores inferiores e qualidade padrão. Ao longo dos anos, os santa-cruzenses se especializaram cada vez mais no ramo de vestuário, o que os levou a conhecer uma nova arma de concorrência e combate a crises financeiras que muitas vezes assolam toda uma região.

No cenário atual, temos hoje grandes nomes que atuam no meio da moda, sejam dos projetos aos produtos finais, e, vale ressaltar ainda, que muitos desses nomes tornam-se motivo de orgulho e admiração para quem aprecia o desenvolvimento do Polo Confeccionista.

Dificilmente se fala de moda em Santa Cruz do Capibaribe sem lembrar de Jorge Feitosa, o santa-cruzense já possui um extenso portfólio de trabalhos e projetos desenvolvidos no ramo de vestuário e acessórios. Jorge literalmente venceu no ramo, não só já tem a sua marca própria, como vive hoje em uma das maiores capitais do país, e vive, vive daquilo que sabe fazer de melhor, lidar com a moda, moda essa que nasceu consigo na sua terra natal, que somado aos seus esforços o projetou para uma realidade almejada por muitos e conquistadas por poucos.

Se você ainda não conhece o estilista Jorge Feitosa, nós preparamos uma super entrevista com o mesmo, entrevista essa onde ele nos contará um pouco de sua vida, seus desafios, como tudo começou entre outras curiosidades, leia na íntegra:

Bruno Muniz: Onde nasceu Jorge Feitosa?
''Nasci em Santa Cruz do Capibaribe, Pernambuco, na Rua dos Pacas. Minha mãe morava em frente a budega de "Zé Miadera" (Risos).
Bruno Muniz: Quem é Jorge Feitosa?
Estranho responder isso... (risos), mas, vamos lá. Me pauto pela necessidade de aprender e ensinar, acredito que vivemos em grupo pela experiência da troca. Não existe quem sabe mais ou menos mas sim quem sabe o adequado para cada situação. Por isso mesmo gosto de estudar, pois o estudo nos leva a conhecer coisas, lugares, situações e pessoas diferentes.
Bruno Muniz: Quando surgiu o interesse pela moda?
''Minha mãe, Helena Dunda, e toda minha família trabalha com confecção desde que a feira da Sulanca surgiu em Santa Cruz. Antes de termos TV em casa, tínhamos máquina de costura. Sempre vivi imerso no universo da confecção, em meio a tecidos, linhas, fios, e indo de feira em feira acompanhando minha mãe mas, para mim era tudo uma diversão (eu era criança...), apesar de ela dizer que eu tinha que aprender pois, viveria disso. Comecei costurando aos 6 anos de idade, fazia roupinhas para as bonecas da minha irmã mas, eu não tinha noção do que significava "Moda", só percebi a palavra moda quando assisti à novela "Ti-Ti-Ti" na TV (década de 1980). Mas aquilo era muito distante da minha realidade pois, o que estava ao meu redor era a produção e não a ''glamourização'' do vestuário.
Bruno Muniz: O que o setor de moda representa em sua vida?
Agora vejo melhor o quanto a questão da Moda e Vestuário me perseguem...(Risos). Sempre fugi disso! Talvez por ver o sofrimento de mãe, fazendo todo trabalho de comprar tecido, cortar, costurar e ir de feira em feira.

Mesmo, começando a fazer minhas próprias roupas na adolescência, sempre quis ser Professor e estudei pra isso, lecionei por oito (8) anos como Professor em Santa Cruz do Capibaribe mas, enquanto fazia a faculdade fui "empurrado" pela Luciana Nunes para fazer uma vitrina na loja de outra amiga, a Patrícia Maciel. A partir daí comecei fazendo vitrinas pra várias lojas na região, depois fui contratado pela Rota do Mar, onde desenvolvia o trabalho de Visual Merchandising até receber o convite de Arnaldo Xavier para fazer parte da equipe de Desenvolvimento de Produto da empresa, isso foi entre 2000 e 2006.

Mas hoje é muito claro, o por que de eu ter nascido em Santa Cruz, o por que de minha mãe insistir em eu aprender tudo que ela sabia a respeito de confecção de roupas e (e hoje uso tudo que ela e minha tia Graça me ensinaram), por que de ter passado pelas empresas e projetos que passei. Moda e Vestuário não são apenas emprego pra mim, são muito mais que isso!
Bruno Muniz: Quando decidiu deixar Santa Cruz do Capibaribe? E por que?
Na verdade não decidi.... Não era um objetivo meu sair de Santa Cruz do Capibaribe, até porque percebo-a como um mercado maravilhoso e com um potencial em expansão profissional gigante nas áreas de Vestuário e Moda.

Eu saí de Santa Cruz em 2006 e, estava a pouco tempo como Estilista da Rota do Mar, lugar onde tive a generosa oportunidade de começar minha carreira. Mas, fui convidado para trabalhar numa marca em São Paulo (Toni Barros era um dos sócios - ele também é natural de Santa Cruz do Capibaribe - PE) e, apesar de estar a pouco tempo como Estilista numa marca com o porte da Rota, vi a chance de estudar e conhecer outra realidade do processo dentro da Moda e Vestuário, bem como a possibilidade de começar uma marca própria. Falo isso por que em Santa Cruz não há mercado para marcas pequenas com foco fora do popular e que produzem pouca quantidade. Aqui em São Paulo é diferente, existem várias marcas pequenas que necessariamente não são populares e o melhor é que existe público para isso. Hoje já existe em Caruaru um movimento parecido com o daqui, de feiras com produtos de Moda e Vestuário chamados de "Alternativos" (Feira Caruá) e isso é muito legal!
(Jorge Feitosa vive hoje em São Paulo, Capital).

Bruno Muniz: Na sua opinião, o que falta em Santa Cruz quando o assunto é valorização da moda?
Eu entendo a cadeia e o processo como um todo. Têxtil, Vestuário e Moda, para mim, são partes de um mesmo processo. Mas muita gente divide isso ou pior, valoriza uma dessas partes em detrimento das outras.

Santa Cruz do Capibaribe é um exemplo claro disso, na década de 1980 a propaganda da cidade girava em torno dela ser "A Capital da Sulanca", na década seguinte por se achar que o termo "Sulanca" era sinônimo de má qualidade, a cidade passou a ser chamada de "A Capital das Confecções" mas, por volta dos anos 2000 o slogan era "A Capital da Moda", justamente uma tentativa clara de se “glamourizar” o que é produzido na cidade. Mas não é um nome, termo, ou expressão que define um produto ou pior ainda, que define a produção de uma cidade inteira que vive disso. O produto não é Moda por ser chamado de moda, como ele não precisa ser de má qualidade só porque é chamado de Sulanca.

A produção do vestuário em Santa Cruz se desenvolve como no resto do país, a passos pequenos e, muitas vezes "queimando etapas" - Tem gente que produz do mesmo jeito que produzia na década de 1980 e seu produto que basicamente é o mesmo, só mudou de nome, a mesma bermuda que era em 1980 "Sulanca", em 1990 passou a ser Confecção e agora é Moda mas, não se evoluiu no processo. E não adianta fazer um espetáculo com desfiles e tudo mais sem um conhecimento sobre o que se faz, não será conhecimento adquirido, ele será apenas repetição do que não se entende. O que proponho é que se estude, estudar é a solução, estudar modelagem, estudar costura, estudar corte, estudar aproveitamento de matéria prima, estudar! Quantas escolas do município, existem em Santa Cruz do Capibaribe que desenvolve um trabalho de aprendizagem na área de Moda e Vestuário? Acredito que se a renda de um lugar é da confecção de roupas, o poder público tem o dever de investir nisso, isso é o fundamento da sustentabilidade, fazer com que o local sobreviva do que produz. Todos falam da China mas, eles primeiro aprenderam a costurar, fazer, e só depois foram aprender a desenvolver, criar. Não adianta saber projetar se não tem quem execute! Mas Claro que existe empresas que se preocupam verdadeiramente com esse processo, e é fácil identificá-las, basta atentar-se para seus produtos e postura com os seus funcionários e clientes.
Bruno Muniz: Você acha que Santa Cruz valoriza quem é da terra?
Essa discussão é ampla mas, pelo lado do Vestuário e Moda vejo que Santa Cruz do Capibaribe perde muito quando tenta por exemplo, "esconder" o passado da Sulanca. 

É um fenômeno cultural que sem dúvida alguma serviria de apoio e base para o desenvolvimento de uma verdadeira Moda Santacruzense. Atualmente sou Professor no Curso de Pós Graduação de Moda da Faculdade de Tecnologia SENAI Antoine Skaf em São Paulo/Capital e, quando falo sobre a história da Sulanca vários estudiosos da área ficam encantados com esse processo. A negação é tão grande, que cidades vizinhas como Caruaru já "tomou" para si, a origem da Sulanca e de sua feira. Cansei de ver reportagens contando "de como a feira da Sulanca surgiu em Caruaru", e isso me deixa triste. Até no Sergipe existe um movimento musical chamado Sulanca que tem como origem a ideia da nossa confecção e feira. 

Por outro lado acredito que a cidade tem que valorizar quem a valoriza, quem faz algo por ela! Em abril, último, ministrei uma palestra na FADIRE, onde falei um pouco sobre minha pequena tragetória e sobre o projeto SENAI Brasil Fashion, projeto do qual participei ano passado. Acho fantástica essa troca com quem está ligado com o sistema de Moda e Vestuário e uma nobre iniciativa da instituição através do convite da Docente Madellon Leite. Posteriormente o Designer Pedro Felipe, de Santa Cruz do Capibaribe, foi fazer uma palestra também na FADIRE, sobre a tragetória do seu projeto "Banquinho Peter", que o fez ser selecionado como um dos seis (6) Novos Talentos do Design do Brasil num evento em São Paulo e, posteriormente o levou para a maior e mais importante Feira de Design Mobiliário do mundo em Milão, Itália. E isso poucos ficam sabendo ou dando importância. O interessante disso é pensarmos sobre quando imaginaríamos que Santa Cruz do Capibaribe estaria representada em tal evento? E isso mostra do que somos capazes!
Bruno Muniz: Observando a sua marca, nota-se claramente a presença de um cacto, símbolo do Nordeste pernambucano, Jorge, qual a significância disso para você?
Na verdade o símbolo da minha marca é um monograma com as iniciais do meu nome "J" e "F" sobrepostos.

Quem me chamou atenção para essa relação com o cacto foi uma vizinha de stand, numa feira, quando viu o meu banner. Claro achei fantástica a relação mas não foi racionalmente intencional...(Risos).

Mas sem dúvida fico muito feliz de levar por onde vou um símbolo que me representa e representa a minha terra!
Bruno Muniz: (Realmente a junção de uma coisa a outra tornou-se uma combinação bem interessante, ficou excelente).
Etiqueta Jorge Feitosa
Bruno Muniz: Como são feitas as suas produções e o respectivo comércio?
Bruno, atualmente desenvolvo trabalhos com a marca JORGE FEITOSA JF por meio de encomendas, tanto para o masculino como para o feminino, desde peças casuais à roupas de festa para noivos e noivas. Também desenvolvo trabalho como Docente nos Cursos de Pós Graduação em Design de Moda, Interfaces da Moda e Moulage de Moda pela Faculdade de Tecnologia SENAI Antoine Skaf em São Paulo - Capital.
Bruno Muniz: Desde já agradeço por ter nos concedido essa entrevista, Jorge, pela disponibilidade atenção que teve conosco, espero que outras mais aconteçam. Por fim, deixe algumas palavras de incentivo para os santa-cruzenses, bem como para todos aqueles que desejam seguir um sonho, seja qual for.
Projeto SENAI Brasil Fashion 2015 - Jorge Feitosa (Assistente do Ronaldo Fraga), Natália Menezes (aluna participante-MG), Ronaldo Fraga (Coach), Amanda Castro (aluna participante-PR) e Jéssica Cerejeira (aluna participante-RN).
Antes de produzir o meu primeiro desfile (ideia do meu amigo Carlos Mosca) em Santa Cruz do Capibaribe em 2003, assisti a um comercial com o Serginho Groisman, onde ele falava justamente sobre isso. Ele dizia que, "...se seu sonho ou objetivo está muito distante não fique parado, pense no que você pode fazer hoje para que daqui 2, 3 ou 5 anos ele seja realizado". E eu me apropriei disso de tal forma que passei a agir assim, por isso costumo falar pra todo mundo não ficar parado, o que parece pouco hoje daqui um tempo será muito, junto com outras ações!

Lembro de alguns pequenos desfiles que fiz, ou de trabalhos que não pareciam tão importantes mas, hoje estou participando pela segunda vez de um evento chamado SENAI Brasil Fashion (evento promovido pelo SENAI Nacional com a participação de 9 alunos selecionados entre todos os estados brasileiros, com a participação dos Estilistas Alexandre Herchcovitch, Lino Villaventura e Ronaldo Fraga), onde na primeira edição (2014) participei como aluno aprendiz do Ronaldo Fraga, e hoje estou participando como seu Assistente. E meu ingresso nesse projeto se deve justamente ao meu portfólio, ao conjunto de pequenos mas, importantes, trabalhos e atividades realizadas por mim.

Muito grato pela oportunidade, fico a disposição para qualquer esclarecimento.Abraços.
Brasil Fashion! 1ª edição em Evento SENAI Brasil Fashion: 1ª Edição - Top Internacional Emanuela de Paula e o Estilista Jorge Feitosa - Foto: Consuelo Blocker

Para contatos:

Jorge Feitosa - Facebook - jorgefeitosa.me@gmail.com - (11) 2872.5194
(11) 98196.4082

| Bruno Muniz | Fotos: Colaborações |

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