Pesquisa inédita em Portugal reescreve as origens de Santa Cruz do Capibaribe


Documentos encontrados em arquivos luso-brasileiros contradizem o mito fundacional da cidade e confirmam presença indígena consolidada antes da chegada dos colonizadores.

Do outro lado do Atlântico, entre arquivos da Torre do Tombo e do Conselho Ultramarino, em Portugal, um pesquisador santa-cruzense está ajudando a reescrever o capítulo inicial da história da própria terra natal.

Éverton Alves Aragão, doutorando em História pela UFRPE, em estágio de pesquisa na Universidade de Évora, tem encontrado documentos que colocam em xeque a narrativa oficial sobre as origens de Santa Cruz do Capibaribe, e o que ele descobriu vai muito além de uma simples correção de datas.

A versão consagrada atribui ao português Antônio Burgos o papel de fundador, numa espécie de mito de origem que atravessou gerações. Os levantamentos documentais de Aragão, porém, contam outra história: os primeiros eixos de ocupação do território não estavam sequer onde hoje é Santa Cruz, mas na Fazenda Espírito Santo, área que pertence atualmente ao município vizinho de Brejo da Madre de Deus.

Outro achado relevante foi a carta de sesmaria original da região onde hoje fica o distrito de Poço Fundo. O documento físico recupera detalhes que haviam se perdido, ou sido silenciados, ao longo de gerações.

Mas talvez a descoberta de maior impacto seja a que antecede qualquer colonizador. Em mapas que datam do século XVII ao XIX, o historiador identificou uma série cronológica de antigas denominações habitantes da região, mais precisamente os povos originários Tatintiba e Tapera, que cruzados com dados de toponímia e geolocalização, indicam ocupação nativa consolidada próxima ao atual centro urbano da cidade. A conclusão é direta: antes dos europeus, aqui já havia povo.

A pesquisa também investiga o passado escravista local. Em parceria com os também santa-cruzenses Antônio Neto, Eduardo Melo e Arnaldo Vitorino, Aragão analisa inventários e registros coloniais para quantificar a população escravizada pelos proprietários de terra e a genealogia das posses da época.

"A história de nossa cidade tem muito mais relações com outras partes da região do que imaginávamos. Santa Cruz do Capibaribe, longe de nascer de forma solene, fez parte de diferentes freguesias e comarcas. Somos um território construído por múltiplas influências, onde houve, desde o período colonial, intensas disputas e transmissão de terras. Por exemplo, já fomos Tatintiba, Tapera, Santa Cruz, Santa Cruz do Brejo, Santa Cruz de Taquaritinga, apenas Capibaribe, entre outras denominações", afirma o pesquisador. 

Os resultados dessa investigação serão publicados no livro Antes da Santa Cruz, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2027.

A obra promete devolver à região uma história pautada no rigor documental, reparando os apagamentos que marcaram a narrativa hegemônica local.

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