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Brasil: um país que evoluiu do Medo ao Cinismo?


Para o filósofo esloveno Slavoj Žižek, o cinismo é uma das principais formas de expressão das relações humanas gestadas sob a égide do atual sistema capitalista. Ao contrário da antiga ideologia, que ocultava a realidade produzindo uma falsa consciência, isto é, a alienação Nesta fase, a verdade encontra-se corrompida pela dissimulação e pelo escárnio. Os cínicos geralmente se revestem com as insígnias da moralidade e da sisudez. Mas até nisso houve significativas mudanças. Os principais cínicos brasileiros são cômicos, pois seja nas palavras, nos gestos ou nas ações – salta aos olhos toda a encenação. O que significa dizer que o seu sucesso não provém da sua arte de dissimular. Pois a sua encenação é fraca demais para enganar o mais simples dos mortais. O problema está mesmo nas pessoas que fingem acreditar neles e aceitam-nos como tal.

Conforme Žižek, o sistema capitalista faz-nos acreditar que cerveja sem álcool é  também cerveja, ou que tomar café sem cafeína seja a mesma coisa. O consumidor sabe que não é bem assim, mas movido por uma escolha racional se deixar enganar.

Ora, nada disso depende de ocultação da coisa em si, isto é, da sua “verdadeira” essência. No caso específico da novela política envolvendo o presidente da câmara dos deputados muita gente já sabia, mas fingia não saber, que Eduardo Cunha era um cínico  salafrário. Porém, o papel desempenhado por ele a serviço das forças conservadoras e reacionárias o elevaram durante meses a ser o seu novo queridinho. Pois ele seria  não somente o responsável pela destruição de direitos civis e sociais, mas o “herói” do golpe contra Dilma Rousseff. Agora que o homem virou um zumbi é tratado como uma desonra à nação pelos seus antigos aliados.

A outra forma de cinismo político encontra-se presente no PT e no governo da presidente Dilma. Desde que foi picado pela mosca azul, o partido ficou mais frouxo e vulnerável ao ingresso de figuras cínicas. A entrada de Delcídio Amaral, figura destacada na Petrobrás durante o governo de FHC não poderia ter sido aceita pelo PT, que inclusive teve a rejeição de uma das alas mais radicais à época. Mas como sempre vencera a ala dos pragmáticos do PT – a que mais aparece nos escândalos e, também a mais suscetível ao jogo das alianças, que além de garantir uma frágil governabilidade é responsável pelao alijamento do PT como principal partido de sustentação. Refiro-me , sobretudo, a aliança com o PMDB. O PMDB é o  principal aliado do governo, tem diversos ministérios, um vice-presidente, mas age como seu principal opositor.

Todo mundo sabe que o PMDB é a expressão máxima do cinismo político brasileiro, mas a cada eleição ele se fortalece nas urnas, Para o bem ou para o mal é quase impossível não depender dele. Assim, aparece o outro modelo de cinismo, qual seja; o do eleitor. Este em nível local e estadual por conta de suas afinidades pessoais, seus interesses particulares (nunca da coletividade) vota em prefeitos, vereadores, deputados, senadores e governadores de partidos da oposição como DEM, PSB e PSDB, por exemplo. Mas voltam em candidatos do PT ou do Psol para presidente, no intuito de ‘mudar” o Brasil.

Sendo assim o eleitorado que maciçamente votou em Dilma é também o mesmo que votou no deputado federal do Dem – ou seja, o mais hostil adversário das mudanças que esse eleitor tanta diz almejar. Um exemplo disso é a cidade de Belo Jardim, onde nasci. Lá setenta por cento da população votou em Dilma, mas deu a Mendonça Filho (DEM) uma votação expressiva para torna-lo seu  majoritário, E, o pior, tal votação contou com o apoio dedicado do único vereador do PT na cidade.
Neste caso, o cinismo está tanto no eleitor que se permite enganar ao achar que vai mudar o país votando em Mendonça Filho – arqui-inimigo do governo petista -  como no PT local que sabe que seu vereador é , na verdade, um representante do DEM. 

Este cinismo petista acontece com o ministro da justiça  José Cardoso e seus delegados aecistas (como diz Paulo Henrique Amorim), os quais além de métodos arbitrários, só servem para investigar e prender petistas e simpatizantes – mas nenhum tucano gordo. O paradoxo do cinismo é que tanto o governo quanto o PT estão cheios de bicudos, quer dizer de tucanos mal disfarçados. E não fazem nada para tirá-los. Ao contrário, promove-os.

No caso da mídia dominante chega a ser ridículo o tamanho do seu cinismo e escárnio à inteligência brasileira. Ela noticia com estardalhaço que a a operação Lava jato prendeu José Carlos Bunlai – amigo de Lula, mas omite desavergonhadamente que o banqueiro André Esteves – dono do banco BTC Pontual – além de ser amigo de Aécio Neves- ajudou a financiar a sua lua-de-mel em Nova York. A mesma mídia, ainda dá toda ênfase a Operação Lava Jato – mas silencia sobre a Operação Zelotes, que é muito mais ampla e impactante. A razão para isso é que essa engloba muita gente ligada à oposição, inclusive a rede globo e outras, atoladas no crime da sonegação fiscal.~

O que dizer então da nossa justiça? Da atuação de alguns magistrados, ultimamente tão visíveis e celebrados pela mídia?  E tão prodigiosos na produção de frases de efeito. Uma dessas foi recentemente elaborada pela ministra do STF Carmem Lúcia. Ela justificou seu voto pela prisão do senador Delcídio Amaral (PT-MS) com o argumento de que a esperança não vencera o medo, mas o escárnio ao cinismo. Não há dúvida do impacto de uma frase desta sobre a sensibilidade dos cidadãos de boa fé, principalmente, porque advém de uma autoridade do mais alto escalão da justiça brasileira. Mas tal frase poderia ser ainda muito mais impactante se o próprio STF e as demais instâncias da justiça nativa não estivessem também mergulhados nas águas turvas do cinismo, das meias verdades, da seletividade dos processos e personagens a serem rifados e condenados ao massacre midiático. 

É bom que fique claro que aqui não somos contra a prisão do senador Delcídio Amaral, da Operação Lava Jato, da publicização dos mal feitos dos envolvidos em crimes – seja ele quem for. A questão é que alguns altos representantes da justiça se tornaram grandes signatários do espetáculo midiático. E, pior do que isso, seletivos nas suas investigações, julgamentos e condenações. Tais juízes foram implacáveis com o mensalão do PT, mas profundamente indiferentes ao mensalão tucano (dito mineiro), inclusive deixando-o prescrever. Até hoje não deram andamento as Operações Castelo de Areia e Satiagraha, nas quais aparecem tubarões como Carlinhos Cachoeira e Daniel Dantas –  este considerado um gênio por FHC.

O juiz Sérgio Moro e o procurador-geral da República Janot até hoje não aceitaram a denúncia de Youssef, principal operador dos crimes da Petrobrás, contra Aécio Neves. Porém, são muito sensíveis as denúncias contra quaisquer petistas. Dois pesos e duas medidas, eis como funciona o cinismo de parte do nosso judiciário.

Ao contrário do que disse a ministra Carmem Lúcia a esperança ainda persiste e vencerá o medo, apesar  de todos os cinismos e retóricas. 

| José Adilson Filho é doutor em sociologia e leciona na UEPB e na Fafica |

(Todas as opiniões aqui expressas são de total responsabilidade do colunista idealizador.)

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