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| Foto: Divulgação |
Jorge Messias, Advogado Geral da União, indicado pelo presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, teve sua indicação ao Supremo Tribunal Federal derrotada no Senado, na tarde de ontem (29), por 42 votos a 34. É a primeira vez em mais de 130 anos que um indicado ao STF é rejeitado.
Repare que faltou uma pergunta ser respondida neste parágrafo: por quê? Essa é difícil, complexa e exige um contexto maior de uma série de acontecimentos recentes em nosso país e exigem atenção máxima, sobretudo em ano eleitoral. Jorge Messias tem notório saber jurídico, uma carreira sem máculas, moral ilibada, cumpria todos os requisitos e mesmo assim foi rejeitado. Messias foi vítima da conjuntura. A política brasileira sempre esbarrou em problemas de ordem ética e moral, quando alguma mudança estrutural real ameaçou se desenhar ao longo da história, sempre houve um massacre ou Golpe de Estado para manter as coisas como estavam. Agora parece partir da política a tentativa de mudança para um outro estado de coisas.
O Brasil é um país na periferia do capitalismo global. Não controlamos o sistema bancário como a Inglaterra, não dominamos o Mercado Financeiro como os Estados Unidos, não somos uma potência tecnológica como China e Japão, nem do Petróleo como as potências do Oriente Médio e a Inglaterra, que nem produz petróleo, mas domina o mercado com grandes companhias. O Brasil é um grande fornecedor de matéria-prima barata, as famigeradas commodities. O que nos mantém como uma das maiores economias do mundo é a nossa grande extensão territorial e uma população entre as maiores do mundo, o que garante uma grande força de trabalho e um enorme mercado consumidor, mas somos coadjuvantes no mundo. Historicamente, convivemos com uma política ineficiente e, em regra, dominada pela corrupção. Pois bem, isso está prestes a piorar.
Tem crescido, ou se tornado mais evidente, um processo de ocupação do poder pelo crime organizado. Além do lobby, que consiste em comprar parlamentares em troca de vantagens, estamos assistindo ao crime ocupando os poderes de forma direta. Cidades pequenas no interior do Brasil têm convivido com os candidatos a prefeito das Bets. No Rio, a milícia e o crime organizado são praticamente a regra na gestão pública e, em Brasília, o Parlamento está em guerra contra o Executivo e o Judiciário para blindar bandidos e barrar leis que obriguem uma parcela da sociedade a prestar contas. Nunca antes na história deste país vimos o Congresso de forma tão sínica proteger criminosos e atacar a democracia e os poderes constituídos. É surreal a quantidade de exemplos, todos os dias, toda hora, em todo lugar.
Horas antes da derrota de Jorge Messias no Senado, a imprensa divulgou imagens e informações sobre uma ilegalidade cometida num aeroporto em São Roque-SP – exclusivo para jatinhos de milionários, na qual o presidente da Câmara dos Deputados e o senador Ciro Nogueira desembarcaram do jatinho de Fernandinho OIG, homem forte do Tigrinho. Parece suspeito? É pior. O jatinho vinha de San Martin, uma ilha no caribe ainda colônia, metade inglesa, metade francesa, um paraíso fiscal. Ao chegar ao aeroporto, parte das bagagens passou por fora do raio-x, portanto, sem qualquer fiscalização. O que havia nos pacotes? Nunca saberemos. Parece crime, e é. Não é coincidência, a derrota de Messias é um recado: parem de investigar, parem de prender, esse é o novo normal. Até o relatório da CPI do Crime Organizado, confeccionado pelo senador Alessandro Vieira, pede o indiciamento do Procurador Geral da República, de ministros do STF e absolutamente ninguém do crime organizado. Na CPI que investigava apostas ilegais, Virgínia foi tratada como celebridade e tripudiou do Brasil e dos brasileiros.
Na Paraíba, terra do presidente da Câmara, Hugo Mota, ontem, no município de Coxixola, tivemos um show de Wesley Safadão, que custou a bagatela de 1,3 milhão de reais. Tirando as crianças, que não pagam impostos, o show custou mais ou menos mil reais para cada contribuinte coxixolense. Longe de mim querer botar preço no trabalho dos outros, mas acredito que Coxixola tenha prioridades mais urgentes para um investimento tão alto. Isso tem acontecido em muitas cidades, em todos os estados e quase todo dia. Parece errado, porque é errado. Na maioria das vezes, esse dinheiro vem de emendas parlamentares, o sequestro do orçamento público visando agradar aliados, legado do consórcio Lira/Bolsonaro. Em outra frente, a lista de contatos de Daniel Vorcaro inclui parlamentares do alto escalão bolsonarista. Os inimigos da direita e do centrão no momento incluem a Polícia Federal, o STF, o governo, a PGR. Ou seja, a lei. A PF está agindo, investigando, prendendo e vêm por aí delações premiadas que podem abalar a estrutura central das fraudes financeiras, do tráfico de drogas, das milícias, apostas ilegais e sobretudo da lavagem de dinheiro.
O tempo está passando e o que mais pode favorecer o crime é uma mudança no comando das instituições que seja mais amigável aos envolvidos. Dependendo de quem ocupe a cadeira da presidência da República, do Supremo e das casas legislativas no curto prazo, o país pode caminhar para se tornar a grande lavanderia de dinheiro do planeta e o crime se tornar a nova lei. A ver.

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