Foto: Divulgação
Escalada no Oriente Médio pressiona preços globais e ameaça acesso a alimentos, inclusive no Brasil
Um alerta da Organização das Nações Unidas aponta que até 45 milhões de pessoas podem ser empurradas para a fome aguda em todo o mundo caso os conflitos no Oriente Médio se prolonguem. A avaliação foi feita por Carl Skau, do Programa Mundial de Alimentos, diante da escalada envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
Segundo o organismo internacional, o impacto vai além da região diretamente afetada e pode desencadear uma crise global, com efeitos nas cadeias de energia, transporte e produção agrícola. A alta no preço do petróleo — que chegou a US$ 105 o barril — já pressiona custos logísticos e encarece insumos essenciais para a produção de alimentos, como fertilizantes e pesticidas.
O Estreito de Ormuz, responsável por uma parcela significativa do fluxo global de petróleo e fertilizantes, também aparece como ponto crítico. A instabilidade na região compromete o abastecimento justamente em períodos estratégicos de plantio, especialmente na África Subsaariana.
De acordo com o PMA, os custos de entrega de ajuda humanitária já subiram 18%. Como consequência, houve redução de assistência alimentar em países como o Sudão, além de limitações no atendimento a crianças em situação de desnutrição no Afeganistão.
Especialistas destacam que o cenário atual difere de crises alimentares tradicionais. Em vez da escassez física de alimentos, o principal fator passa a ser o acesso econômico. Mesmo com oferta disponível, o aumento dos preços pode impedir que parcelas da população consigam se alimentar — fenômeno conhecido como “fome por renda”.
O constitucionalista Leonardo Ribas, pesquisador dos determinantes sistêmicos da injustiça alimentar, avalia que o problema está relacionado à estrutura do sistema global de produção e distribuição de alimentos. Segundo ele, o controle concentrado do setor por grandes corporações limita a soberania alimentar e amplia desigualdades.
Estudos citados pelo pesquisador indicam que um número reduzido de empresas domina a cadeia produtiva global, desde insumos agrícolas até a distribuição em redes varejistas. Esse modelo, aliado à dependência de derivados de petróleo, torna o sistema vulnerável a choques geopolíticos.
Impactos no Brasil
Mesmo distante do epicentro do conflito, o Brasil também pode sentir os efeitos. A elevação dos combustíveis impacta diretamente o transporte de mercadorias, pressionando o preço final dos alimentos.
Apesar de avanços recentes na redução da fome, especialistas alertam que o cenário ainda é sensível a oscilações externas. A recomposição de estoques públicos e o fortalecimento de políticas de abastecimento são apontados como medidas essenciais para mitigar os impactos.
Programas sociais e iniciativas de compra direta da agricultura familiar funcionam como mecanismos de proteção, mas enfrentam limitações diante de pressões inflacionárias persistentes.
O alerta da ONU reforça que, em um contexto global interdependente, conflitos regionais podem ter consequências amplas, afetando diretamente o acesso à alimentação e ampliando a vulnerabilidade de milhões de pessoas ao redor do mundo.
Postar um comentário
Comentários ofensivos, preconceituosos e descriminatórios podem ser removidos pelos nossos administradores.