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O atentado contra Bolsonaro e a demonização do contraditório


Não há dúvida que já faz algum tempo que estamos experimentando uma cultura política degenerada. Vivenciamos uma polarização política extrema. Eu conceituo essa agressividade latente na política brasileira, como uma espécie de “guerra civil de narrativas”. Onde nesse confronto de extremos intolerantes, tem-se observado uma verdadeira demonização de quem pensa e vota de forma diferente.

O lamentável atentado que o candidato Bolsonaro sofreu, bem como o atentado a bala que a caravana do Lula suportou a algum tempo, se manifestam como eventos que demonstram um confronto acirrado de militâncias azucrinantes. Toda militância, em regra é muito chata e paranóica.

Nesse contexto, essa guerra de ideologias tem intensificado uma polarização que chegou ao ponto de usar a violência (inclusive física) para a destruição do outro. Esse outro não é mais de um adversário político, mas sim um algoz, que justamente por não pertencer a ideologia que determinado grupo defende (à direita ou à esquerda), precisa ser eliminado, destruído, extinto do espaço público.

Essa demonização do outro passa por uma lógica doentia, tal lógica intolerante não reconhece a legitimidade do contraditório, a validade do outro ponto de vista. Tanto no atentado contra o Bolsonaro, como também no atentado contra a caravana do Lula, pode-se observar militantes comemorando, fazendo chacotas, e até mesmo elaborando teorias conspiratórias sem sentido, afirmando que tais incidentes teriam sido forjados ou algo do tipo.

Se existe uma pensadora que pode servir como um excelente guia de interpretação do presente contexto beligerante no Brasil, essa pensadora é Hannah Arendt. Para a eminente pensadora o ser humano é um ser plural, pois no mínimo o ser humano é ele mesmo e sua consciência. E é através do uso da consciência que podemos verificar nosso comportamento, refletir sobre nossas ações, onde consequentemente, essa reflexão nos conduzirá a destruição de todos os nossos ídolos (inclusive os políticos).

Quem usa a sua consciência não se coloca a defender com uma fidelidade canina nenhum político. Quem pensa por si mesmo não se torna uma mera caricatura banal de um militante de determinada ideologia. Uma vez que somos seres plurais, deveríamos dar testemunho da singularidade dos outros, considerando autêntico não apenas o ponto de vista de quem concorda com a gente, mas também reputar legítima a posição de quem encontra-se no contraditório, na discordância, no contraste daquilo que acreditamos.

Para Hannah é o pensar que nos torna humanos. A virtude reside no exercício da reflexão. Nesse passo, quando apoiamos um discurso de ódio (à direita ou à esquerda) e demonização do outro, fazemos parte dessa engrenagem do mal. O sentido da política é a liberdade e não um embate violento de ideologias. Encerro apenas repetindo uma indagação da nobre autora: no que atine a política, o que nós temos nos tornado pra nós mesmos? 

Por Beethoven Barboza


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