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Nelson Rodrigues e o futebol como identidade nacional — Por Beethoven Barbosa


Ao término do jogo entre Brasil e México, sai da minha casa em direção ao trabalho. E no trajeto para o escritório pude contemplar algo belíssimo. Pessoas com a camisa da seleção na frente de suas casas. Alegria. Muita gente comemorando com buzinas em seus carros e suas motos. Ver esse sorriso espontâneo tão característico da nossa identidade nacional futebolística, me fez lembrar do maior cronista (ou seria ensaísta?) brasileiro, do gênio, do eterno, do gigante Nelson Rodrigues.

Nelson Rodrigues inventou o teatro moderno brasileiro. Grande dramaturgo e escritor, conseguiu como poucos ler a alma do povo brasileiro. De um brilhantismo peculiar, ele era capaz de traduzir com palavras poéticas e proféticas toda a nossa paixão pelo futebol.

Maior moralista brasileiro, a sua escrita era marcadamente uma literatura de espiritualidade, onde se explora a natureza humana e se aprofunda na sua condição de miserabilidade. Nesse sentido, o autor em comento interpretava o jogo de futebol como uma batalha épica, uma verdadeira peleja entre heróis e medíocres, um confronto entre bravos e covardes. E nesse embate grandioso, a garra e a fibra se manifestam como as principais virtudes dos vitoriosos.

De forma incomparável, o Nelson percebeu a vocação do futebol para criar nossa identidade nacional, como algo capaz de paralisar, e, ao mesmo tempo, mobilizar o país inteiro. De modo inigualável, esse eminente escritor percebeu que os mesmos sentimentos que afloram num flamenguista carioca, também se apresentam no torcedor do Santa Cruz em Pernambuco (maior do nordeste, diga-se de passagem).

Mas brincadeiras à parte, vale dizer que foi o Nelson que cunhou o termo “vira lata”, para designar o complexo de inferioridade que se manifesta no brasileiro, quando admiramos os defeitos dos estrangeiros e depreciamos a nós mesmos, sendo quase incapazes de valorizarmos o que nós temos de melhor.

Em suma, ao interpretar o futebol como uma luta épica de emoções, o Nelson nos ensina que, apesar dos nossos problemas (que são muitos na verdade), nós podemos acreditar no nosso potencial, enaltecendo o que nos define como brasileiros: a alegria mesmo em meio a duras batalhas, e a bravura que nós temos diante dos desafios. 

Por Beethoven Barbosa


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