Professor comove a internet após relatar história de ex-aluno assassinado

Em uma publicação no Facebook, o professor Mário Júnior que leciona em Santa Cruz do Capibaribe comoveu a internet ao relatar a história de um ex-aluno seu que fora assassinado no último domingo (27), em São Domingos, distrito de Brejo da Madre de Deus – relembre o crime.

Em sua postagem o educador conta como tentou, sem exito, afastar o aluno do mundo das drogas e do crime cada vez mais presentes em seu viver e que certamente lhe custaram a vida. Confira abaixo o texto publicado pelo professor:
Foto: Arquivo do blog
"O sentimento de derrota é forte. Cada dia que passa eu perco a motivação", escreveu Mário Jr.
Meu ex-aluno Jonatas, que apelidei de 'Caça-Rato', foi assassinado. Era meu amigo. Teve envolvimento com assaltos, escapou de morrer outras vezes. Usava drogas. Cheguei a levá-lo ao hospital devido a problemas decorrentes do uso. Analfabeto quase completo, criado na pobreza por pai e mãe humildes e batalhadores (igualmente sem instrução) mas que para ganhar salários trabalhavam demais, impossibilitando uma presença maior na vida dos filhos. Jonatas trabalhava, levava uns trocados pra casa.

Mas a vida num ambiente de exclusão, pobreza e violência pesam. O ambiente se sobrepõe ao indivíduo na maioria das vezes. Jonatas era, no fim das contas, um delinquente. Criado num ambiente social onde o símbolo de poder é um indivíduo com arma na mão, onde os pais não sabem lidar com a complexidade da realidade. Onde o poder não age em favor dos pobres, onde as igrejas não chegam. Onde as pessoas não percebem que a educação pode ser a chave pra criar uma vida autônoma; e fica difícil passar essa mensagem quando os alunos mal conseguem ser alfabetizados, trabalham desde muito cedo para ter comida em casa (recebendo salários míseros pagos por espertalhões) e estudam em colégios sem estrutura que lhe sirva positivamente como um símbolo do valor da educação. Diante desse contexto estudar parece algo distante, supérfluo.

Alguns podem dizer que Jonatas era alguém mau, um "deliquentezinho que morreu até que tarde". Mas eu o conheci. Foi um rapaz sempre educado, bondoso e atencioso comigo, embora tivesse paúra de estudar (parecia sentir como se estivesse sendo dominado, domado). Sempre me falou da mãe, de como ela era importante pra ele. Uma vez pensou em entrar pro circo, era exímio equilibrista. Procurou os papéis, tirou documentos e estava tudo certo pra ir com a trupe do circo do "Palhaço Cheirozinho" (que vira talento no garoto). Me confidenciou: "Eu quero ir, professor. Vai ser um bom trabalho, vou viajar, ganhar meu dinheiro. Essa vida de sair por aí roubando dá certo não. A gente apanha da polícia, dá desgosto pra mãe. Dá certo não. Quem sabe eu não ganho muito dinheiro e mando algum pra ela". Faltava-lhe senso de realidade.

A mãe vetou a ida, alegou que sentiria saudade do filho e que ele não iria se virar bem com um monte de estranhos. Tentei convencê-la, mas foi em vão. Jonatas ficou e o ambiente o cooptou. Abandonou as idas ao colégio, onde apesar de não estudar ele convivia com boa gente que lhe tratava bem e lhe dava bons conselhos, voltou a consumir drogas. Depois não tive mais notícias dele e as vezes me perguntava como ele estaria, até que hoje vi a notícia. É triste, principalmente por que sei que poderia ter sido alguém maior do que foi. O sentimento é de derrota. E espero que nenhum desses sociopatas de Facebook venha aqui ironizar essa postagem com suas falas cheia de ódio, ressentimento e falsa indignação. Não tenho pena de bandido. Que se cumpra a lei sobre todos, que se puna ao que se erra. Mas eu acredito na vida, pois é tudo que temos. Depois dela nada há.

Vejo em Jonatas o drama de uma vida que poderia não ter brilhado, ser grande e genial, mas que poderia ter sido plena, bonita, apesar de suas limitações. O sentimento de derrota é forte. Cada dia que passa eu perco a motivação.
Nota
O post anterior sobre o falecimento de um ex-aluno meu se tornou conhecido. O Blog do Bruno Muniz até transformou em notícia. Escrevi um texto sobre a lembrança que tinha dele, não o via há mais de 1 ano e meio.

Agora a pouco fui ao velório e conversando com parentes soube que Jonatas havia se juntado com a namorada e que ao saber que ela estava grávida havia abandonado o uso de qualquer droga e arrumou emprego. Havia se regenerado por amor a um filho. Sua filha tem apenas 1 mês de vida.

Faço essa correção, e espero que Bruno a publique, para preservar a memória do meu ex-aluno. Perdemos ele pra uma fatalidade, uma crueldade, mas não para as drogas. Apesar do choque da perda, fico um pouco feliz de saber que em seus últimos dias Jonatas havia se tornado um indivíduo que podia se orgulhar de si mesmo. 

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