''Por mais respeito e menos flores!''


O dia da mulher geralmente é marcado pelas homenagens que recebemos na escola de nossos filhos, nas flores e doces entregues nas lojas do comercio, pelas rosas perfumadas que recebemos de alguém. A lembrança é valida e agradecemos a “gentileza”.  No entanto, eu gostaria de dizer que troco minhas flores, bombons e cartões por respeito, e antes que o discurso do patriarcado fale mais alto e muitos digam “olha lá a feminista fazendo vitimismo!”, pare um pouquinho e leia o texto. As mulheres carecem mais de respeito do que de flores, sabe por quê? Porque apesar de sermos guerreiras, inteligentes, esforçadas, fortes... a sociedade machista quer nos fazer acreditar que nossa vida e nosso corpo não nos pertence!

Na infância ganhamos de presente uma boneca e panelinhas cor-de-rosa, para que aprendamos a ser “donas” de casa, enquanto os meninos aprendem a ser donos do mundo com seus carros, aviões, submarinos, foguetes. Na escola aprendemos a sentar de pernas bem fechadas para não exibir o nosso corpo, não podemos participar das brincadeiras de meninos, não podemos jogar futebol, não podemos correr, nem suar porque isso é muito masculino... aprendemos a esconder e ter vergonha do nosso corpo para não “provocar” nenhum homem. Precisamos ficar caladas quando passamos em frente a uma construção e os pedreiros gritam “gostosa!”. Afinal eles estão nos elogiando, assim como fazem com um pedaço de carne posto à mesa.  Sabe por quê? Porque nosso corpo não nos pertence.

Na faculdade, sofremos assédio do professor doutor que acha que seus títulos lhe dão também o poder sobre os corpos femininos. No ônibus outros homens se acham no direito de passar a mão onde quiserem. No carnaval, a cerveja e a brincadeira dão margem a puxões, beijos roubados, violência gratuita a qualquer sinalização de negação das paqueras. Sabe por quê? Porque nossa vontade não é respeitada.

Somos maioria nas universidades brasileiras, nos cursos de pós-graduação, mas minoria nos cargos mais altos das empresas, nas chefias, nas gerências. Nos cursos ligados às ciências exatas somos poucas, já que na nossa infância não somos estimuladas a montar e desmontar carrinhos, não ganhamos quebra cabeças de presentes, nem caixinhas de ferramentas, nosso mundo é cor de rosa, cheio de laços, flores e histórias de princesas presas em castelos. Não nos deixam pensar em criar robôs ou procurar dinossauros escondidos, pois estamos muito ocupadas esperando o príncipe encantado aparecer. As oportunidades não são iguais no mercado de trabalho quando falamos de homens e mulheres, muito menos os salários. Sabe por quê? Porque nossa capacidade não é reconhecida.

Quando engravidamos, se a maternidade não for o nosso desejo, somos impedidas de abortar, seja pela criminalização legal ou pela criminalização social que esta palavra tem. A maternidade se torna uma obrigação e não uma escolha. Mesmo quando o filho é desejado, planejado, o controle continua. Todos querem saber se é menino ou menina para determinar a cor que essa criança vai usar. O parto não é encarado como um evento fisiológico e natural. A grandeza de gestar e parir uma vida é diminuída à vontade do médico que quer marcar logo a cesárea, pois ele, e apenas ele, sabe o que fazer. Perdemos o controle desse momento tão importante e transformador na vida de qualquer mulher. Nossos partos “normais” são traumáticos, cheios de violência, seja ela física ou simbólica. Mandam que nos calemos durante as contrações, zombam dos nossos gritos, dizendo: “Na hora de fazer não foi bom? Agora aguente as consequências!”. Nos cortam o períneo sem nenhum embasamento científico, mutilam nossa genitália e nossos corações para o resto de nossas vidas.  Nos impedem de amamentar em público, mas aplaudem a modelo que desfila com os seios à mostra na Sapucaí.  Sabe por quê? Porque nossos filhos não nos pertencem.

Mãe não é estado civil e não existe mãe solteira. Existe apenas mãe que pode estar casada ou solteira. Pai não é ajudante de mãe, ele é pai, ele também fez o filho, ele precisa trocar fralda, dar banho, dar comida, colocar para dormir, passar a noite em claro, fazer o almoço que todos vão comer, limpar a casa... mas não limpa! Afinal ele passa o dia trabalhando, mas a mãe também passou e quando chegar ao final do dia, cansada, ela vai fazer tudo isso sozinha, porque aprendeu que é assim que tem que ser. O marido ainda pode reclamar que ela não está se cuidando, não se arruma como antes e o evita na cama, ele pode ainda se aborrecer, “sentir-se sozinho” e ir procurar diversão fora de casa. E essa sua conduta vai ser totalmente aceita, sabe por quê? Porque sua esposa não soube segurar o marido, porque ela é uma chata, estressada! Quando a separação ocorre o juiz dá a guarda pra mãe, mas o pai tem o direto de ficar com a criança no final de semana, levá-lo com a malinha cheia de roupas limpas, passadas, comidinhas prontas que a mãe passou a madrugada da sexta preparando. No domingo ele vai levar o filho na casa da mãe e entregar atrasado o “absurdo” de pensão que paga. Mas mesmo assim vai ser considerado um paizão porque posta fotos lindas com o filho no jogo de futebol nas redes sociais. E a mãe vai encontrar olhares tortos em todos os lugares por ser uma mãe solteira! Sabe por quê? Porque o patriarcado nos diz diariamente que só somos suficientemente boas se estivermos casadas mesmo quando vivemos num relacionamento fracassado, infeliz ou abusivo.

A lei Maria da Penha está em vigor há alguns anos, mas a cada 5 minutos uma mulher é espancada neste país. Minha vizinha grita e recebe socos diariamente em seu rosto porque olhou para aquele fulaninho na rua, minha colega da universidade apanhou do marido e foi trancada no quarto com uma bebe de 4 meses no colo, a amiga da minha irmã apanhou porque saiu com um short muito curto, trancou-se no banheiro e ligou para a policia mas eles demoraram 45 minutos para chegar e o seu agressor já estava na rua, livre!  No dia das mulheres do ano que vem elas vão receber flores e bombons novamente, mas será que é mesmo disso que precisamos?

Precisamos e lutamos por respeito, por voz, por visibilidade e dignidade. Queremos que nossos corpos tenham as regras que nós mesmas estabelecemos e que nossos desejos sejam respeitados. Queremos mais carrinhos para as meninas, e mais mulheres no curso de engenharia mecânica. Queremos que elas sentem-se da maneira mais confortável pra elas, queremos andar de short curto ou de burca sem sermos agredidas e assediadas por isso. Queremos sair de casa à noite, sozinhas, e não ter que rezar para que a pessoa que vem atrás de nós não seja um estuprador. Queremos parir em casa ou no hospital, mas sem cortes, sem mutilações e sem desculpas que levam a cesáreas agendadas. Queremos optar pela maternidade ou não, sem sermos criminalizadas por isso. Queremos salários justos, queremos punição para nossos agressores, queremos que a agressão acabe.  Queremos também que os homens deixem de ser vítimas do machismo, que eles se permitam chorar, que se permitam ser pais de verdade, e combatam os discursos dos amigos que o diminuem quando estes exercem tarefas ditas femininas. Que aceitem que nunca saberão o que passamos na pele, mas que respeitem nossas dores e lutem conosco para construir um mundo menos marcado pela desigualdade entre os sexos.

Não estamos sozinhas. Que possamos nos ver na vizinha que apanha, na amiga que aborta, na menina que tem as princesas como companhia, na mulher que pariu seu filho sem dignidade, na jovem que é estuprada na rua. Que nossas diferenças se transformem em sororidade e não em competição, que essas angústias sejam sentidas por todas nós, que a  indignação tome conta das mulheres e reverbere em luta, não só hoje. Afinal, nascer mulher, significa nascer pra luta.

Por: Danielly Moura

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