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O mito de sísifo e a questão do suicídio – Por Beethoven Barbosa


Albert Camus foi um grande filósofo do século XX. O nobre autor toma como ponto de partida o absurdo como primado de sua reflexão. Para o eminente pensador, o absurdo se caracteriza em um encontro profundamente contraditório entre o ser humano e universo. Onde por um lado temos o universo que simplesmente existe a despeito de nós, esse mesmo universo indiferente convive com um homem que tem a necessidade de atribuir significado à tudo.

É nesse encontro que se perfaz o absurdo, tendo em vista a absoluta incapacidade do ser humano em decifrar empiricamente o significado do universo e o sentido da vida. Para Camus, diante do absurdo que é a nossa existência nesse universo, só há de fato um problema filosófico realmente sério: a questão do suicídio. Ou seja, trocando em miúdos, o cerne da filosofia consiste em indagar se vale a pena ou não viver a vida. Quando por exemplo, sentimos um enorme vazio no peito, experimentamos uma profunda solidão, ou mesmo nos deparamos com uma sensação de não se encaixar em lugar algum, percebemos o absurdo em nossas vidas.

Em sua célebre obra “O mito de Sísifo”, Camus se debruça sobre o sentido da vida atrelada a questão do suicídio. Afirma o nobre ensaísta que diante do absurdo que é viver, nos resta escolher entre três caminhos: o suicídio físico; o suicídio filosófico e a aceitação. O suicídio físico obviamente ocorre quando se tira a própria vida. Por sua vez, o suicídio filosófico ocorre quando acreditamos que não há sentido para o tempo presente, quando acreditamos não existe significado no que fazemos ou vivemos agora, mas somente encontraremos sentido na vida após a morte ou numa sociedade “perfeita” e utópica do futuro. 

Desse modo, o suicídio filosófico ocorre quando fugimos do presente. Nessa esteira, o “Mito de Sísifo” se apresenta justamente para entendermos o que ele chama de “aceitação”. Na mitologia grega, Sísifo era perdidamente apaixonado pela vida e considerado o mais astuto dos mortais, mas que por ter enganado os deuses foi condenado a empurrar uma grande pedra até o topo de uma montanha, somente para que quando chegasse lá, a pedra rolasse montanha à baixo e ele fosse obrigado a recomeçar o trabalho, por toda a eternidade.

O que interessa ao presente texto é quando Sísifo desce para a base da montanha. É justamente nesse percurso que Sísifo toma consciência da tragédia que é trabalhar em vão. Nesse prisma, pode-se fazer um paralelo da condenação de Sísifo à condição humana, onde subimos a montanha a semana inteira, para descer no fim de semana, subimos a montanha durante a vida toda, para que tudo acabe no final. Durante a descida da montanha, podemos nos questionar sobre qual é o sentido de tudo isso, e sofrermos com uma crise existencial. Todavia o autor nos leva a refletir se por acaso o absurdo da nossa vida faz com que a dança seja menos bela?

Ou o abraço de quem amamos seja menos arrebatador? Ou o sexo menos prazeroso ou mesmo a nobreza e a honra sejam menos louváveis? Certamente não. Desse modo, diante da aparente falta de sentido no universo, vale a pena sim continuar empurrando nossas pedras montanha à cima, uma vez que a própria luta em direção às alturas, já faz a vida valer a pena e é suficiente para nos tornar pessoas com dignidade e honradez.

Por Beethoven Barbosa


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