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Sobre a difícil tarefa de amadurecer no amor — Por Beethoven Barbosa


Desde de a Idade Média a literatura se preocupa com a temática do amor como um afeto avassalador. Existe no amor eros ou amor apaixonado uma espécie peculiar de tensão. De forma resumida, pode-se dizer que a pessoa apaixonada experimenta um tipo de conflito entre o desejo e a virtude. De modo que esse desejo faz a pessoa se sentir vivo e capaz, por vezes se confronta com a percepção de limites, organização e previsibilidade.

Essa paixão devastadora que nos subjuga de forma inesperada e contingente, nos impulsiona a um relacionamento prazeroso, carregado de brilho, cheio de novidade e repleto de expectativas. Basta chegar perto da pessoa amada para sentir as pernas bambas e aparecer aquele frio na barriga.

Ficamos em êxtase, somos capazes de fazer verdadeiras loucuras, não é sem razão que boa parte da literatura chama esse estado de patologia ou “doença da alma”. Todavia o tempo passa. E essa resplandescência do ineditismo vai pouco a pouco se esvaindo com o passar dos dias. É evidente que depois de muitos anos, esse casamento que outrora se baseava na paixão ou no eros deve assumir um novo patamar.

Depois de muito tempo de casamento, as pessoas não continuam juntas só por causa do tesão ou por causa dessa paixão que tem o poder de tirar o nosso chão. Com o passar dos anos, o relacionamento exige uma experiência afetiva de maior qualidade. Um afeto mais maduro e que resista as intempéries e dificuldades dessa vida.

Nesse sentido, quando não se trata de um casamento de aparências, diante do fim da paixão, as pessoas permanecem casadas porque construíram uma história juntas, porque são cumplices, tem uma profunda intimidade. Nesses dias atuais, com essa modinha do desapego e essa lógica dos “afetos descartáveis”, fica mais difícil amadurecer a ponto de dar o devido valor e importância a quem dedicou anos da sua vida a nos amar.

Nesse contexto de tanta futilidade, onde em diversos setores sociais somos estimulados a sermos mimadinhos, fica cada vez mais complicado desenvolver uma maturidade emocional capaz de lidar com as dores e as dificuldades da convivência a dois. Assim como ocorre no mito de Eros e Psiquê, em que só depois de muitas lutas e muito sofrimento, enfim os amados podem se unir, promovendo uma divina comunhão entre o corpo e a alma, entre a paixão e a sabedoria, assim também só poderemos experimentar esse amor romântico através de muita paciência, cuidado e respeito as diferenças. Quando realmente amamos, fazemos um esforço excepcional, por considerar a pessoa amada igualmente excepcional.

Por Beethoven Barbosa


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