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Estranheza inominável de Clarice Lispector — Por Beethoven Barbosa


O que dizer de Clarice Lispector?! Clarice é estranhamente genial, inominavelmente estupenda. A literatura de Clarice caminha pelo assombro e pelo espanto das coisas. É um tipo único de escrita. É uma literatura que conduz o leitor a estranhar acontecimentos cotidianos, e a partir desse estranhamento, sair de si mesmo em direção a esse estranho de modo intenso e íntimo.

O presente texto busca de forma muito simples e bastante resumida, abordar alguns aspectos da obra “A paixão segundo G.H”. Uma obra fascinante, que para que faça mais sentido, exige do leitor uma certa conexão emocional por assim dizer. Nesta obra, a nobre autora fala sobre um despertar. Despertar de uma vida chata, alienada e repetitiva. Mas esse despertar tem um custo. Tal preço a ser pago se manifesta no choque repentino e arrebatador com algo feio, fora do nosso padrão estético e social.

A partir dessa epifania, a personagem percebe o mundo de aparências e superficialidades em que vive, e passa a buscar simplesmente a essência da vida, uma espécie de natureza pura e primeira das coisas. É a busca por uma verdade encoberta pelas camadas que nós mesmos colocamos por medo e necessidade de adequação social. Esse cerne recoberto não pode ser delimitado ou classificado por alguma palavra, ele é inominável.

Mas apesar da impossibilidade de conceituar essa verdade pulsante, nós podemos nos aproximar disso justamente pela capacidade de nos espantarmos, de nos surpreendermos com as coisas da vida. Essa aproximação se por um lado nos aterroriza, por outro lado permite que nós tenhamos alguns vislumbres da conexão perdida com esse amor indizível, essa pureza indescritível.

E é só perdendo o medo desse fluxo, desse caminho de entranhas e vísceras, que podemos buscar o acolhimento desse amor, o contato com esse fogo vivo da vida. Nesse sentido, apesar de ser um verdadeiro horror e sofrimento para G.H despertar de uma vida alienada e limitada, continuar vivendo essa vida se manifesta como um inferno também. Ou seja, para chegarmos perto dessa verdade que vai além de nós mesmos, se faz necessário despertar e trilhar esse caminho difícil e penoso de mergulhar em si mesmo.

Por fim, para Clarice não há escapatória. Nós somos frágeis, insuficientes e desamparados. Somos tão vulneráveis quanto as personagens de Clarice, quando achamos que estamos seguros, acontece uma coisa simples e aparentemente banal e nos desmonta. Reiteradamente somos destroçados pelo cotidiano. Vivendo a estranheza da nossa vida, tentamos traduzir o desconhecido, conhecer o incompreensível, ou como diria Clarice, nós vivemos nos equilibrando em um “abismo de nada. Só essa coisa grande e vazia. Um abismo”.

Por Beethoven Barbosa


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