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Shakespeare: Otelo e a insegurança humana — Por Beethoven Barbosa


Shakespeare é um dos meus autores favoritos. Sou absolutamente fascinado pela sua genialidade. O modo brilhante como esse renascentista aborda os valores e questões atemporais como o amor, a morte, a justiça a virtude e a nobreza é algo realmente fabuloso. No bojo dessas obras arrebatadoras, encontra-se Otelo o Mouro de Veneza.

Em um resumo muito simples da obra, pode-se dizer que em Veneza existia um nobre chamado Brabâncio. Este por sua vez tinha uma filha belíssima, virtuosa, honrada que era Desdêmona. Ou seja, todos os pretendentes de Veneza eram loucos pra casar com Desdêmona, mas ela rejeitou a todos. Mas entregou seu coração a um Mouro, a um estrangeiro de pele escura, que era Otelo, herói de diversas batalhas a serviço da corte, ao qual declarou no Ato I, cena III, que “submeteu-se-me o coração à essência mesma de meu marido, vi o retrato de Otelo em seu espírito, e a suas honras e partes valorosas, minha sorte e a alma inteira dediquei”.

Otelo tinha um tenente que era Cássio, onde ambos, por desgraça, caíram na mira de um mal caráter (em minha humilde opinião, o melhor vilão de Shakespeare) Iago. Nesse contexto, Iago nutre um ódio mortal e uma profunda inveja por Cássio e Otelo, pois estes são os heróis da corte. Através de meios ardilosos e manipulativos, Iago consegue envenenar Otelo contra Cássio, ao fazer este acreditar que Desdêmona era amante de Cássio. Otelo, devido a sua insegurança e a todo o veneno que havia sido implantado por Iago, ao acreditar que estava sendo traído pelo amor da sua vida, vai lá e enforca Desdêmona com as próprias mãos.

 Nesse sentido, ao se fazer uma análise desta obra maravilhosa, tem-se que os três principais personagens na verdade representam três grandes arquétipos humanos. Desdêmona representa o racional, o discernimento, aquela pessoa que independente da situação se mantém firma na sua nobreza e honradez. Iago se apresenta como a concupiscência, a pessoa sem controle, o pior do ser humano. E por fim Otelo alude o colérico, a pessoa que apesar das suas muitas virtudes, por vezes tem uma brecha no caráter e ao dar lugar a suas inseguranças, acaba cometendo atos pelos quais irá lamentar profundamente.

Verifica-se que a falha trágica de Otelo é a insegurança. Muitas vezes na obra, Iago coloca na cabeça de Otelo que ele não é nobre suficiente para merecer o amor de uma mulher tão bela e virtuosa. Ou seja, por não se enquadrar nas características aparentes dos nobres da corte, Otelo acabou por se sentir inferior. Apesar de sua bravura e de sua nobreza, Otelo não reconhecia em si mesmo o seu próprio valor e a sua dignidade. 

Em suma, Shakespeare nos ensina que nosso valor se afere pelo que nós somos e pelo que nós fazemos, e não pela nossa aparência ou pelo o que os outros pensam a nosso respeito. Nesse passo, se nós não tivermos consciência do nosso valor e da nossa dignidade, certamente também iremos sofrer com essa falha trágica, a falha de sermos inseguros em relação as pessoas que amamos e ao nosso valor diante da vida.

Por Beethoven Barbosa


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