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A greve dos caminhoneiros e as soluções paliativas — Por Beethoven Barbosa


Agora que a greve dos caminhoneiros terminou e o calor da situação se exauriu, podemos fazer algumas reflexões de forma mais tranquila. Desde já, afirmo que fui e sou totalmente a favor da greve dos caminhoneiros, tendo em vista que é belo, justo e moral que as pessoas lutem pelos seus direitos e por melhores condições de vida e de trabalho.

Em que pese eu ser favorável ao movimento em apreço, faz-se importante deixar a ressalva de que a greve em comento deveria ter sido mais planejada e organizada, no sentido de prejudicar o mínimo possível a população e também de inibir ao máximo pessoas de má índole e interesses escusos que acabaram por se infiltrar nas paralizações.

Durante esses dias de paralização, nós constatamos a imensa importância da categoria dos caminhoneiros na economia e no cotidiano de nosso país. Essa categoria tão sofrida que convive com estradas em péssimo estado, insegurança e uma baixa margem de lucro (onde muitas vezes se recorre ao uso de drogas para se manter “aceso” no objetivo de entregar a carga no prazo determinado), ao lutar pela diminuição no preço do combustível, demonstrou que a paralização de seu trabalho, tem o poder de paralisar o país inteiro

Um questionamento que pode-se fazer, consiste em indagar por qual motivo o Brasil depende tanto do transporte rodoviário? A resposta para essa mazela é a famigerada intervenção estatal. Nosso país tem um extenso histórico de intervenção estatal irracional. Nesse diapasão, a destruição da malha ferroviária em favor das rodovias é fruto de uma série de intervenções desastrosas do governo.

Quando analisamos o século XIX por exemplo, constatamos que por meio da Lei de Terras no Brasil, não seria mais permitido aos particulares, obter terras por meio de posse, tendo em vista que as terras que não tivessem proprietário pertenciam exclusivamente ao Estado.  Desse modo, para se fazer uma ferrovia nessas terras, era necessária uma concessão do Governo, o que dificultava bastante o desenvolvimento dessa ferramenta de transporte.

De outra banda, os Estados Unidos com o intuito de incentivar a economia no interior, liberava a posse de terras às pessoas que quisessem produzir. Essa liberdade na aquisição das terras propiciou uma maior produção no interior do país, produção esta que produziu uma demanda por ferrovias. Como havia demanda e uma maior liberdade para os particulares investirem em ferrovias, a malha ferroviária dos EUA se desenvolveu muito, a ponto de nos dias atuais contar com mais de 226 mil quilômetros de extensão.

Com o passar dos anos, o governo Juscelino Kubitschek decidiu fazer a Capital federal no centro do território nacional, com rodovias ligando o país inteiro. Veio a ditadura e os militares terminaram de desmontar a malha ferroviária, investindo apenas em estradas.

Em suma, se constata que o Estado brasileiro busca a implementação de soluções imediatistas, continuadamente ao longo da história. Se por um lado, nos Estados Unidos se prioriza a liberdade da iniciativa das pessoas, aqui no Brasil, desde o século XIX, o Estado não tem estratégias que se projetem a longo prazo. Escapar desse populismo de soluções fáceis e encarar a realidade de pensar o país para daqui a 30 ou 50 anos, se manifesta como um grande desafio para nossos governantes e também para nós sofridos eleitores. 

Por Beethoven Barbosa


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