.

A paraíso são os outros?


Vivemos dias difíceis. A intolerância com o pensamento divergente e o fanatismo de militantes que se consideram os donos da verdade são nítidos no atual contexto brasileiro. Muitas pessoas, seja no âmbito religioso, político ou acadêmico, preferem viver em suas bolhas. Fanáticos religiosos se acham mais santos que os outros, militantes políticos se consideram representantes do “bem” na luta contra o “mal”, ao passo que acadêmicos com uma mente fechada se percebem como portadores da solução para os problemas do mundo.

Nesse contexto de polarização e intolerância com o contraditório, se mostra necessário uma profunda reflexão sobre a ética e a alteridade. Sempre que debatemos ética, emerge uma pergunta que não quer se calar: ainda existe esperança para o ser humano? Um grande filósofo produziu uma obra brilhante a esse respeito, seu nome era Emmanuel Lévinas. Basicamente e de forma muito resumida, pode-se dizer que o eminente filósofo propõe que o indivíduo só passa a ser humano ao se completar no próximo.

Emmanuel Lévinas como um dos filósofos mais importantes do século XX, e por qual eu tenho uma profunda admiração, propõe um humanismo que se concentra no outro homem. O outro e a alteridade são para ele o começo da filosofia, o fundamento da razão, e mais, o próprio sentido do humano na realização da justiça e da paz. Para ele o próximo é sempre um mistério que nos conduz ao infinito. O outro é sempre maior do que eu, tendo vista que que ele pode me mostrar um universo novo. Conhecer o outro e suas infinitas possibilidades é uma aventura que não tem fim e nem volta.

Reflitamos sobre quem nós somos. Tudo o que somos, para o bem e para o mal teve uma influência determinante das pessoas que nos criaram, que cuidaram de nós ou nos maltrataram. A cada encontro com o outro surge um novo homem. Surge um homem melhor, pois o rosto do outro retira o eu privilegiado e egoísta, colocando em causa sua existência para si. Não é porque penso que logo sou, na verdade eu sou porque o outro se aproxima de mim e me retira da solidão.

Em suma, para este nobre pensador o eu não se basta a si mesmo. Nosso mundo se abre e se enche de desejo do bem quando nos colocamos no lugar do outro. Quando tentamos ver o mundo com os olhos do outro nosso universo se expande. A sabedoria do amor se revela como uma viagem às profundezas do ser, uma aventura ao mais íntimo da alma.

Quando refletimos sobre nossa existência, constatamos que os dias mais felizes de nossas vidas foram justamente os dias em que nós saímos de nós mesmos, e nos dedicamos apenas a proporcionar felicidade e alegria para que amamos e para quem é importante para nós. Quando entendemos o significado do amor sem retribuição, de compreender sem cobrar nada em troca , entendemos que sim, o paraíso são os outros!  

Por Beethoven Barbosa

Comentários pelo Facebook
0 Comentários pelo Blog

Ao escrever seu comentário, certifique-se que o mesmo não possui palavras ofensivas (palavrões), calúnia e difamação contra ninguém, pois, caso haja, ele poderá ser banido por nossos moderadores, desejando manter a ordem e respeito a usuários e terceiros citados nas publicações.

Para mais informações consulte as nossas Políticas de Uso