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Editorial – Programações musicais de São João nos tempos modernos


Na última quinta-feira (25) a Prefeitura Municipal de Santa Cruz do Capibaribe divulgou as atrações que irão se apresentar no popular São João da Moda, evento junino do município e que este ano contará com atrações consideradas de grande renome na música em todo o território nacional. Não demorou muito para que víssemos em nossas redes sociais as críticas por parte de grupos que repudiaram a maioria das atrações, alegando não serem o que representa de fato a festa tradicional principalmente para os sertanejos e nordestinos.

Esse ano subirão ao palco no município artistas como Márcia Fellipe, Gabriel Diniz e Israel Novaes, músicos que defendem a bandeira das letras liberais e que fazem apologia a atividades não muito convencionais no contexto social padrão. Quem fala e repudia esses artistas é geralmente quem defende outro tipo de segmento musical, afastando-se sempre do público que segue e venera esses artistas não-conservadores. A verdade é que, nos últimos anos os eventos tradicionais e folclóricos perderam o sentido e apesar do público ter mudado consideravelmente, os representantes dessas culturas não se renovaram, além de não terem surgido novos representantes para o público apegado e defensor do tradicionalismo.

Diante deste cenário de transição cultural, cresceu o formato das festas massivas e os detalhes característicos das festividades realmente culturais se tornaram apenas estampas para o que temos hoje. É bem verdade que para um gestor de cultura ou prefeito, torna-se muito mais viável promover eventos que agreguem às massas do que insistir em artistas que, embora defendam a bandeira, neste caso do São João ao modo tradicional, não 'arrastam' grandes multidões para os pátios de eventos.

Não foi apenas Santa Cruz do Capibaribe que vivenciou consideráveis mudanças na sua grade de programação junina. Há anos Caruaru e Campina Grande (PB) tiveram que modelar suas atrações forçadamente, caso contrário amargariam grande impacto na economia/turismo, isso porque os públicos que procuram essas cidades neste período do ano estão interessados nas atrações que se apresentam o ano inteiro em grandes eventos privados e nas emissoras de televisão. Ou seja, ninguém além do povo teria propriedade e poder para mudar a programação de qualquer festividade típica de uma região, a não ser o próprio povo. Só um povo é capaz de mudar uma cultura. Foi isso o que fizeram.

A explicação para toda essa mutação social e cultural está nos polos multiculturais dos eventos tradicionais. Na maioria deles, onde se apresentam artistas locais e outros que defendem o estilo padrão dos remanescentes culturais, o público espectador é mínimo e diminui a cada ano. Apesar de triste os historiadores já fazem previsões que festividades semelhantes ao São João e até mesmo o próprio estão com os dias contados. Isso já é visível para quem faz comparativos sobre a história e a polarização dos segmentos culturais.

A única certeza até então sobre toda esse situação que todos os anos gera novas polêmicas é que os valores gastos com as festividades públicas, sejam elas grandes ou pequenas (compostas por atrações que atraem grandes ou pequenos públicos), saem dos bolsos dos contribuintes. Seja em forma de consumo, patrocínios ou os tão falados e exorbitantes impostos.

Por Bruno Muniz

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