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Humanização: "Projeto parto com Amor" é iniciado em Santa Cruz do Capibaribe


O Brasil não é apenas o pais do futebol. Ganhamos internacionalmente outro titulo de “campeões”, mas este, infelizmente não nos orgulha. O Brasil é também o campeão das cesáreas. A cirurgia infelizmente é tratada de forma banal no país, e vergonhosamente somos os campeões dos índices mundiais de nascimentos por via cirúrgica. A cesárea que salva vidas, se bem indicada e feita quando há real necessidade tornou-se praticamente a regra dentro do sistema obstétrico brasileiro, chegamos a 83% dos nascimentos via cesárea no sistema privado de saúde e 43% no SUS quando a OMS recomenda que apenas 15% dos partos deem-se por via cirúrgica. 

80% das gestantes desejam parir no inicio de suas gestações, no entanto, ao longo da gravidez são levadas a acreditar que a cirurgia é a melhor opção. Não é! Além de elevar em 4 vezes mais o índice de morte materna a cesárea feita sem indicação e de forma eletiva (agendada) causa complicações respiratórias  nos bebes, aumenta o índice de prematuridade, e dificulta o processo de amamentação, além do desconforto e da maior probabilidade de complicações no pós parto para a mãe. O que falta então a estes 80% de mulheres que desejavam parir seus filhos da forma mais natural possível?

Médicos, enfermeiras, obstetras   que informem realmente as mulheres sobre os benefícios do parto normal. Que não utilizem seu poder socialmente construído e centrado na figura medica como a única detentora do saber, para manipular, construir indicações irreais de cesarianas  e mitos que sustentam o sistema cesarista. Sistema centrado no medo da dor do parto normal, na ilusão de segurança da cesárea, na violência obstétrica, infelizmente sofrida por 1 em cada 4  brasileiras e principalmente no lucro, na ideia de que tempo é dinheiro, que culmina na incapacidade de esperar o tempo dos bebes estarem prontos para nascer e das mulheres estarem prontas para parir. Uma cesárea dura em média de 15 a 40 minutos. Um parto normal dura de 12 horas até dias. Por ter esse caráter singular a cada mulher e cada processo, o parto normal é encarado como perca de tempo e dinheiro para o médico que tem muitas vezes, um consultório inteiro para atender. E assim, nascemos com hora e dia marcados.

Informação. Infelizmente a cultura cesarista está arraigada intrinsecamente não apenas nos hospitais e nas maternidades, mas também nas nossas famílias, nas mães, tias, vizinhas que nos incentivam a fugir do parto normal, contando sempre os relatos mais terríveis sobre alguém que sofreu demais no seu trabalho de parto. Infelizmente muitos desses partos são terríveis mesmo, cheios de intervenções desnecessárias, recheados de desrespeito e violência física ou simbólica.

É ai que entra uma palavrinha importantíssima em meio a esse show de horrores: humanização! É preciso humanizar o parto! Seguir os dez passos para a humanização propostos pela OMS. Tornar ele um evento marcado pelo respeito, pelo protagonismo da mulher. Afinal, quem faz o parto é ela. E seu corpo que foi totalmente capaz de gerar e gestar uma vida, porque não seria capaz de parir também? Porque a natureza falharia justamente no final de um processo natural tão lindo e fascinante?

É preciso então pensar em outras palavras importantes nessa história: empoderamento feminino. É preciso dizer as mulheres que elas tem poder, que elas são capazes de parir, que sua bacia não é estreita, que toda mulher tem dilatação, passagem, que seu corpo não é defeituoso que o bebe não é grande demais, que o parto não vai alargar sua vagina. É preciso romper o machismo impregnado em todos estes discursos. É preciso que o medico deixe a mulher parir na posição e da forma mais confortável pra ela, mas é preciso também que quando ele ou qualquer profissional não permita isso ou qualquer outra coisa, ela saiba que tem direitos e que lute por eles! Esse empoderamento se adquire através do apoio de outras gestantes, mães, mulheres.

Desses grupos nasce algo muito importante e essencial: a sororidade, que é justamente o sentimento de que somos irmãs e não rivais, que podemos nos apoiar, nos acolher, nos ajudar mutuamente, assim como as índias e mulheres de outras sociedades ancestrais faziam. Essa ajuda se transforma então em saberes que são passados horizontalmente de uma para outra mulher, e o conjunto desses saberes é o que nos da o poder, o poder sobre nossos corpos, sobre nossas vidas. É preciso, sobretudo, que todos entendam que uma mulher parindo é um ser humano fazendo a coisa mais incrível e somente comparada a grandeza divina. Sim ela está oferecendo a vida, trazendo outro ser humano para este mundo! Ela precisa também ser tratada como uma “deusa” por isso.

Há um ano atrás um grupo assim surgiu aqui na nossa cidade. “mamães unidas são mais sabidas” saiu de uma rede social, ganhou encontros quinzenais e se transformou no “projeto parto com amor”. Hoje iniciamos o projeto nas UBS's da Palestina e  Pará (Santa Cruz do Capibaribe). Foi muito lindo e gratificante ver mulheres apoiando mulheres, conversando sobre seus medos, suas experiências e sobre os tabus e mitos que permeiam o parto. Dividimos, absorvemos, acolhemos, partilhamos vivências. Vida longa a esse projeto lindo e voluntário que iniciamos, junto a secretaria de saúde e coordenadoria da mulher do município de Santa Cruz do Capibaribe. Que muitas outras gestantes possam ouvir, falar e que adquiram o empoderamento e a informação necessária para que tenham seus partos da forma mais respeitosa possível.

Por Danielly Moura
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